6 de janeiro de 2008

Poema de Antonio Miranda - 2

O grande intelectual e poeta Antonio Miranda resolveu premiar os leitores deste blog, autorizando a publicação de dois poemas de sua autoria em que homenageia estrelas do cinema brasileiro. Por sua magnânima atitude, o nosso reconhecimento.


MAZZAROPI

Precisamos resgatar a figura do Jeca Tatu
do matuto, do nosso esquecido Mazzaropi
- um caipira com nome de pizzaiolo!

Não importa, ele era telúrico!
com suas botas, fumo-de-rolo, chapéu surrado
camisas quadriculadas, cusparadas e babaquices
[babaquice não é uma palavra poética
adverte-me o editor Victor Alegria]
caminhando aos trambolhões, apalermado.

Seu casebre era de pau-a-pique
o cão preguiçoso a imitar o dono
o panelão no fogo e o cigarro-de-palha
queimando-lhe os lábios no cochilo
ou no ronco escancarado.

Grosseiro? Vulgar? Caricato?

Ríamos de nosso próprio desengonço
de nossa rudeza, ingenuidades
ao som de violas e pilhérias
em torno de fogueiras, sob bandeirinhas
de São João, no terreiro
na roça! no cinema, envergonhados.

Os filmes horríveis, por isso maravilhosos!
Cantava como um bezerro desmamado
atuava imitando a si mesmo
e, por isso mesmo, genial.

Os filmes eram sempre os mesmos
os enredos sempre iguais, banais
as mesmas vacas, os mesmos pastos
da fazenda que devia ser a dele
as mesmas galinhas
o velho caminhão de feira
e aquele andar pisando ovos
ou bosta de gado.

Era o nosso Cantinflas, o nosso Chaplin
ou, se menos, nosso palhaço-de-circo
nosso ventríloquo, nosso bobo da corte
que nos levava ao riso e às lágrimas.

Agora os nossos interioranos são country
em vez de viola ouvem guitarras elétricas
em vez de calças frouxas e encolhidas
usam jeans e cintos reluzentes.

Mas, lá adiante, no pé-de-serra
ainda existe um Mazzaropi tirando
bicho-de-pé com facão de cortar cana
e alguma lamparina, uma moenda
caninha de alambique
uma capelinha rural enfeitada de fita
e folhas de palmeiras
e um galo marcando a tradição.

(Crédito da foto: fina-sintonia.blogspot.com)

Poema de Antonio Miranda - 1












O grande intelectual e poeta Antonio Miranda resolveu premiar os leitores deste blog, autorizando a publicação de dois poemas de sua autoria em que homenageia estrelas do cinema brasileiro. Por sua magnânima atitude, o nosso reconhecimento.

AS DIVAS

Para Raimundo Tadeu Corrêa

No cinema brasileiro de minha juventude
as mulheres eram emblemáticas, prototípicas!
Emblemáticas? Prototípicas?!

Eliane Lage era asséptica, higiênica
maravilhosamente burguesa e fleumática
enquanto Eliana, saia godê
parecia vir de um seriado de TV!

Vanja Orico, nativa refinada
onça amazônica, encarnava o sertão
numa representação telúrica/regional
como um ícone, um mito
i.e., emblemática e prototípica!

Norma Bengell sempre personificava
nossos instintos, nossos desvios
excessos, as vontades mais recônditas
- por que não confessar? – nossos pecados
pois havia ainda pecado abaixo do Equador.

Havia Tônia Carrero, tão linda, tão perfeita!
Podia passar por uma atriz de Hollywood
não fosse a língua de seus filmes!
Tão superior, tão loura! Tão emblemática
de nossas projeções/superações raciais
meridionais.

Mas eu gostava mesmo
mais intensamente
devo confessar: apaixonadamente
era da Odette Lara
- uma Anita Ekberg nos trópicos –
mesmo vestida
ela estava sempre nua!

A nudez de Norma Bengell
era pontual, momentânea
ou seja, prototípica...

A nudez de Odette Lara era integral
permanente, dos pés à cabeça
estava no mar libidinoso
de seus olhos! Na sensualidade
de seus ombros mesmo quando
vestidos!

E não havia mais ninguém!

Em preto-e-branco
elas luziam todas as cores
de um arco-íris secreto.

ELIANE LAGE, a eterna musa do cinema brasileiro, vive atualmente em Pirenópolis, Goiás, e tenho o privilégio de encontrar-me com ela vez por outra. A presente homenagem, ainda que coletiva, expressa minha admiração e encantamento por sua figura-símbolo. ANTONIO MIRANDA

(Crédito das fotos: 1 - Eliane Lage: http://www.3continents.com/; 2 - Odette Lara: http://www.geocities.com/; 3- Tônia Carrero: site.pirelli.14bits.com.br)